quinta-feira, 25 de janeiro de 2018
As Duas Marmitas
Dia de chuva, nublado. Ponto de ônibus que nem placa de ponto tem, que dirá um banquinho. Encostada na parede úmida, espero como quem nem quer chegar a lugar algum. Não é incomum que alguma figura notável por olhos atentos e ignorada pelo mundo desça de um ônibus capenga desses. O da vez era um senhorzinho muito magro, só ossos e cartilagem de nariz; Tinha um sorrisinho distraído que vencia a gravidade e duas marmitas, uma em cada mão. Desceu piando nas poças com os pés calçados co chinelos de verão. Sacudiu os pés como se isso fosse capaz de secá-los e olhou para cada lado da estrada como quem ia atravessar. Talvez o sorriso se desse porque faltava pouco para almoçar com alguém. Ou até mesmo, podia almoçar duas marmitas sozinho. De qualquer forma, eu também sorria. No entanto, veio outro ônibus também caindo aos pedaços e ele ergueu o braço com o alter alimentício. Estava mais longe do que eu imaginava. Ele sim tinha que chegar a algum lugar. Já de barriga cheia, talvez eu devesse ir a algum lugar também.
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Palavra na Calçada
Veio aquele grupo de meninos da escola fazendo um estardalhaço típico. Daqueles que a gente até atravessa a rua se não for parte do grupo. Quem se mistura com porco, farelo come, já se diz.
Um cacheado pegou um graveto e saiu tocando bateria pelo caminho até encontrar para ele uma função mais palpável. Cimento molhado. E lá tem coisa melhor pro moleque marcar? Do lado de umas patinhas de cachorro desavisado, pegou seu galho como se fosse uma varinha mágica e registrou como se fosse a coisa mais simples e óbvia. Não foi seu nome, assinatura ou um desenho entre as milhares de possibilidades. Escreveu "fé" como se achasse ser o que melhor compreendia.
Talvez fosse fanático demais, embora não parecesse. Às vezes, simplesmente compreendia a fé melhor que carolas. Ou até poderia ser uma mensagem para quem passasse. Palavra aleatória, quem sabe.
Pergunto-me se alguém há de reforçar o cimento ou mesmo deixar aquilo ali para um monte de outras pessoas acharem que é um lembrete. Nada disso parece assim tão importante, mas um cronista acha inusitado até o jeito que uma folha cai, que dirá uma palavra escrita na calçada.
Maria Clara L.
Um cacheado pegou um graveto e saiu tocando bateria pelo caminho até encontrar para ele uma função mais palpável. Cimento molhado. E lá tem coisa melhor pro moleque marcar? Do lado de umas patinhas de cachorro desavisado, pegou seu galho como se fosse uma varinha mágica e registrou como se fosse a coisa mais simples e óbvia. Não foi seu nome, assinatura ou um desenho entre as milhares de possibilidades. Escreveu "fé" como se achasse ser o que melhor compreendia.
Talvez fosse fanático demais, embora não parecesse. Às vezes, simplesmente compreendia a fé melhor que carolas. Ou até poderia ser uma mensagem para quem passasse. Palavra aleatória, quem sabe.
Pergunto-me se alguém há de reforçar o cimento ou mesmo deixar aquilo ali para um monte de outras pessoas acharem que é um lembrete. Nada disso parece assim tão importante, mas um cronista acha inusitado até o jeito que uma folha cai, que dirá uma palavra escrita na calçada.
Maria Clara L.
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Complexidades
A respiração é mais complexa que o movimento do tórax.
O movimento é mais complexo que o que nossos olhos podem ver.
A visão é mais complexa que as imagens que aparecem em nossas mentes.
Nossas mentes são mais complexas do que a sequência incalculavelmente veloz dos pensamentos.
Os pensamentos são tão complexos que se associam ao sentir.
E eu sinto que quanto mais penso, mais complexas são as coisas.
E quanto mais compreendemos as complexidades, menos somos gratos por elas.
Virtuosos os simples que amam mesmo o que não entendem.
Por: Maria Clara L.
O movimento é mais complexo que o que nossos olhos podem ver.
A visão é mais complexa que as imagens que aparecem em nossas mentes.
Nossas mentes são mais complexas do que a sequência incalculavelmente veloz dos pensamentos.
Os pensamentos são tão complexos que se associam ao sentir.
E eu sinto que quanto mais penso, mais complexas são as coisas.
E quanto mais compreendemos as complexidades, menos somos gratos por elas.
Virtuosos os simples que amam mesmo o que não entendem.
Por: Maria Clara L.
sexta-feira, 22 de julho de 2016
vão de vagão
eles tinham o olhar fixo um no outro,
de muito mal desviar pra entrar no vagão do metrô sem tropeçar no vão.
acho que é culpa da confiança que o amor dá de que nunca vai dar nada errado enquanto estiverem juntos.
tem muita história naqueles olhos que não se desviam.
talvez tenham se conhecido há umas semanas ou talvez há anos,
mas têm uma energia de quem se conhece faz vidas,
de quem cresceu e cultivou juntos.
não faço ideia de quem são,
de onde vieram ou para onde vão,
mas o amor deles é tão grande que me arrebata.
quero um amor bom desses que preenche o coração dos poetas.
de muito mal desviar pra entrar no vagão do metrô sem tropeçar no vão.
acho que é culpa da confiança que o amor dá de que nunca vai dar nada errado enquanto estiverem juntos.
tem muita história naqueles olhos que não se desviam.
talvez tenham se conhecido há umas semanas ou talvez há anos,
mas têm uma energia de quem se conhece faz vidas,
de quem cresceu e cultivou juntos.
não faço ideia de quem são,
de onde vieram ou para onde vão,
mas o amor deles é tão grande que me arrebata.
quero um amor bom desses que preenche o coração dos poetas.
terça-feira, 28 de junho de 2016
Retorno
Eu retornei à casa onde nasci e acreditei que eu ainda conhecia algo.
Não sabia onde estavam as tomadas, as paredes estavam mudadas e embora a porta do quarto, os suportes das redes, e alguns armários continuassem os mesmos, eles eram apenas objetos. não eram meus. Busquei com os olhos ávidos apenas uma coisa: minhas marcas de altura em uma pilastra. Não estavam lá. Massa corrida escondia minhas memórias. Quis chorar. Briguei comigo mesma mentalmente: que adianta bancar a não-materialista se quer chorar pela ausencia de traços de giz? Eu não tenho mais a mesma altura, nem a mesma casa, nem a mesma vidas.
Tudo muda e, um dia, assim como as memórias, toda a matéria será carregada pelo vento. Pelo tempo.
Não sabia onde estavam as tomadas, as paredes estavam mudadas e embora a porta do quarto, os suportes das redes, e alguns armários continuassem os mesmos, eles eram apenas objetos. não eram meus. Busquei com os olhos ávidos apenas uma coisa: minhas marcas de altura em uma pilastra. Não estavam lá. Massa corrida escondia minhas memórias. Quis chorar. Briguei comigo mesma mentalmente: que adianta bancar a não-materialista se quer chorar pela ausencia de traços de giz? Eu não tenho mais a mesma altura, nem a mesma casa, nem a mesma vidas.
Tudo muda e, um dia, assim como as memórias, toda a matéria será carregada pelo vento. Pelo tempo.
Partilha
Talvez eu não lhe ame do jeito que você merece ser amado. Assim como, talvez, você não me ame do jeito que eu mereça ser amada. A gente é diferente a beça, a gente sabe. Mas a gente se interessa por umas coisas parecidas, e podia até correr atrás delas juntos. Também sabemos disso.
Eu quero mais de nós. Mas não precisa ser muito mais não, só o suficiente.
E pra mim é suficiente partilhar esse espaço-tempo contigo e ouvir o teu silêncio se enlaçar com o meu. Ver tuas ideias misturarem com as minhas. Falar de coisas tão profundas que a gente esquece do que tá falando e como chegou aqui. Murmurar um segredo tão bobo que chega a ser inesperado. Correr sabendo que mesmo que um se atrase, o prêmio é partilhado. Um admirar o sorriso do outro. Observar a luz do sol contra nossas silhuetas e a aura da lua contra nossas almas. Guardar esses lugares do espaço, do tempo, da memória, do momento, num lugar só nosso. Um se explodir no outro e se reconstituir. Viver mais do que lembrar. Ser e estar em partilha.
Talvez a gente se ame do jeito que merece.
quarta-feira, 22 de junho de 2016
As Mãos
Mostrou-me a face,
Escondeu-me as mãos.
Teu coração em disfarce
Faz da afirmativa um não.
Negastes as marcas,
Disseste que cicatriz não há.
Tuas mentiras são harpas
Desafinadas, lançadas ao mar.
Desapegado o músico
Que não utiliza tal instrumento,
Pois cego no fusco
Não lhe abala o tormento.
Reformas tua alma
E refaz a ação.
Portanto, afines a harpa
E revelas as mãos.
terça-feira, 21 de junho de 2016
Eu vou embora
Se tinha um colo para morrer era muito. Talvez tivesse ficado por piedade, mas ao menos tinha alguém para ouvir seus últimos sussurros. Um amigo, talvez. Não adiantaria lhe contar toda a história, nem mesmo lamentar, mas, mesmo assim, era tudo o que acontecia em sua mente.
Ela o amava de toda a alma e coração. Acreditava que ele a amava também. Talvez não tão intensamente, mas o pouco que ele lhe guardasse, já era o suficiente. Não permaneceram juntos por questões de tempo, de condições, de meios. Ela estava absolutamente errada em insistir. Deveria ir para a forca para pagar minimamente seus pecados.
A esposa dele estava quase para ter seu filho. Todos acreditavam que seria um menino. O esperado. Ele andava tão interessado pela criança, que a pobre moça fora deixada de lado. Despediu-se dela.
Um último beijo. Nem ao menos fora o mais carinhoso dos beijos. O sabor era de piedade. Adeus.
Nunca chegou a lhe contar. Também tinha um menino no ventre. Mas não há quem se importe com o ventre da amante. Ou com o corpo, com a vida ou com o coração.
Não sabia que era possível morrer de tristeza até que seu momento chegou.
Dói muito. Está escuro. Eu vou embora.
E foi.
Ela o amava de toda a alma e coração. Acreditava que ele a amava também. Talvez não tão intensamente, mas o pouco que ele lhe guardasse, já era o suficiente. Não permaneceram juntos por questões de tempo, de condições, de meios. Ela estava absolutamente errada em insistir. Deveria ir para a forca para pagar minimamente seus pecados.
A esposa dele estava quase para ter seu filho. Todos acreditavam que seria um menino. O esperado. Ele andava tão interessado pela criança, que a pobre moça fora deixada de lado. Despediu-se dela.
Um último beijo. Nem ao menos fora o mais carinhoso dos beijos. O sabor era de piedade. Adeus.
Nunca chegou a lhe contar. Também tinha um menino no ventre. Mas não há quem se importe com o ventre da amante. Ou com o corpo, com a vida ou com o coração.
Não sabia que era possível morrer de tristeza até que seu momento chegou.
Dói muito. Está escuro. Eu vou embora.
E foi.
quarta-feira, 1 de junho de 2016
coque e metrô
essa vida de coque e metrô não me pertence
eu vivencio o mundo é com os pés descalços e um vento gostoso no rosto
pertenço aos artistas e não aos mandantes
os ricos acumulam pra viver bem, mas só sobrevivem
os pobres trabalham para sobreviver, e, quando se veem livres, vivem
passo longe da egocentria anciã dos afetados
sorrio para os que trançam suas emoções com eterna alegria juvenil
eu vivencio o mundo é com os pés descalços e um vento gostoso no rosto
pertenço aos artistas e não aos mandantes
os ricos acumulam pra viver bem, mas só sobrevivem
os pobres trabalham para sobreviver, e, quando se veem livres, vivem
passo longe da egocentria anciã dos afetados
sorrio para os que trançam suas emoções com eterna alegria juvenil
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Pardon, ami.
Não diga que não tive coração,
Pois que minha mente agiu sob intenções que não entendia.
Para que a razão de analisar-te a alma
E tomar-lhe os sentimentos, se não pude distinguir o que sentia?
Perdoe-me, amigo.
Perdoe-me por não me conhecer o suficiente para não lhe ferir.
Perdoe-me por não perdoá-lo.
Perdoe-me por não perdoar-me.
Sou Atlas e o mundo de culpa recai-me aos ombros.
Anseio pela vida em que eu me estabilize,
Em que eu me perdoe,
Em que eu entenda o amor em sua verdadeira face.
Não lhe peço que me ensines a amar,
Não lhe peço que faça nada por mim,
Pois que não o mereço.
Peço apenas, amigo, que me perdoe.
Pardon. Je suis désolé, ami. Pardon.
Pois que minha mente agiu sob intenções que não entendia.
Para que a razão de analisar-te a alma
E tomar-lhe os sentimentos, se não pude distinguir o que sentia?
Perdoe-me, amigo.
Perdoe-me por não me conhecer o suficiente para não lhe ferir.
Perdoe-me por não perdoá-lo.
Perdoe-me por não perdoar-me.
Sou Atlas e o mundo de culpa recai-me aos ombros.
Anseio pela vida em que eu me estabilize,
Em que eu me perdoe,
Em que eu entenda o amor em sua verdadeira face.
Não lhe peço que me ensines a amar,
Não lhe peço que faça nada por mim,
Pois que não o mereço.
Peço apenas, amigo, que me perdoe.
Pardon. Je suis désolé, ami. Pardon.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
não sei por onde começar
não está tão frio assim
tenho algumas ideias na cabeça
não sei por onde começar de novo
começo por você porque já é de praxe
sempre foi mais fácil especular sobre o dentro do outro do que sobre o nosso próprio dentro
você é só olhar
aqueles olhos grandes cheios de coração remexido e guardado
não sou nem doida de tentar arrumar
prefiro dançar nesse salão bagunçado
até as coisas irem pro lugar com o vento dos meus rodopios
eu tinha saudades quando não te via
não lembro dos nossos planos
mas a gente se acha
mesmo depois de uma tarde por aí
ou uma noite por aqui
embaixo das estrelas que caem sobre nossas faces
há uma mensagem nelas
eu não consigo ler
talvez não estejam caindo
tenho algumas ideias na cabeça
não sei por onde começar de novo
começo por você porque já é de praxe
sempre foi mais fácil especular sobre o dentro do outro do que sobre o nosso próprio dentro
você é só olhar
aqueles olhos grandes cheios de coração remexido e guardado
não sou nem doida de tentar arrumar
prefiro dançar nesse salão bagunçado
até as coisas irem pro lugar com o vento dos meus rodopios
eu tinha saudades quando não te via
não lembro dos nossos planos
mas a gente se acha
mesmo depois de uma tarde por aí
ou uma noite por aqui
embaixo das estrelas que caem sobre nossas faces
há uma mensagem nelas
eu não consigo ler
talvez não estejam caindo
sexta-feira, 29 de abril de 2016
Prazer em conhecê-lo
Rótulos demais, trejeitos demais.
Não os quero, dispenso.
Quem és tu pra dizer o que sinto ou o que penso?
Não sabes de nada, cale-se.
Não quero ouvir.
Não.
Rótulos de menos, trejeitos demais.
Assim está melhorando.
Espero que goste do que penso.
Ainda guardo um pouco.
Acho que prefiro assim.
Talvez.
Rótulos de menos, trejeitos de menos.
Bom, sendo assim...
Sinto tudo isso. Pronto, falei.
Estava certo desde a metade.
Guarda meu carinho com cuidado.
Sim.
Não os quero, dispenso.
Quem és tu pra dizer o que sinto ou o que penso?
Não sabes de nada, cale-se.
Não quero ouvir.
Não.
Rótulos de menos, trejeitos demais.
Assim está melhorando.
Espero que goste do que penso.
Ainda guardo um pouco.
Acho que prefiro assim.
Talvez.
Rótulos de menos, trejeitos de menos.
Bom, sendo assim...
Sinto tudo isso. Pronto, falei.
Estava certo desde a metade.
Guarda meu carinho com cuidado.
Sim.
sexta-feira, 8 de abril de 2016
Conjugar
São 2 da manhã e eu acordei pensando em amar. A gente ouve umas coisas sobre e concorda, né. É bom mesmo essa coisa de amar. É verbo, a gente ta sempre conjugando. Era o único que eu gostava de conjugar em todos os tempos e modos, mas meu favorito era o presente. Era o mais facil. Se não é dificil conjugar amar no presente e no papel, não há de ser no mundo. Amor bom é amor facil.
Bom mesmo é eu te amar desse jeito que tu é. Bom mesmo é tu me amares do jeito que eu sou. E se a gente mudar no caminho, a gente muda junto e de mãos dadas.
Bom mesmo é eu precisar e você também. É pedir pro Universo e ele fazer a gente se resolver. A gente é possibilidade. A gente sabe amar.
Como assim não sabe? Claro que sabe. A gente se permite, se aceita, se partilha. A gente caminha juntos e faz as coisas simples e bonitas. A gente se conjuga.
terça-feira, 5 de abril de 2016
Faz de conta que o café tá frio
Boa tarde, senhor. Já é quase boa noite. É, verdade.
Eu estava pensando, sabe?
Quero uma poesia mais simples.
Sem contagem de verso, sem rima obrigatória, sem muita intensidade, só com uns cadinhos grandes de coração bom mesmo.
Quero uma poesia de correr sem conseguir parar, de riso que não consegui prender, de sorriso que faz os moços chamarem pra dançar, que faz as crianças dançarem ciranda.
Uma poesia, nem a poesia.
Poesia que pousa no coração.
Poesia delicada que nem o soprar de um fogo pequenininho, de sair a fumacinha bonita e rodopiante.
Poesia que faz a gente ouvir uma música bonita no pé do ouvido da imaginação.
Poesia de fugir do pôr do sol pra ter mais tempo pra brincar.
Como assim já é bom dia? Passei a noite toda sonhando, senhor?
Desculpe, então, bom dia.
Então, me vê um café pra eu ver a fumacinha subir.
Esse café tá frio. Faz de conta que você bota pra esquentar de novo.
Obrigada.
Bonita fumacinha.
Pronto, agora vamos brincar de outra coisa.
Eu estava pensando, sabe?
Quero uma poesia mais simples.
Sem contagem de verso, sem rima obrigatória, sem muita intensidade, só com uns cadinhos grandes de coração bom mesmo.
Quero uma poesia de correr sem conseguir parar, de riso que não consegui prender, de sorriso que faz os moços chamarem pra dançar, que faz as crianças dançarem ciranda.
Uma poesia, nem a poesia.
Poesia que pousa no coração.
Poesia delicada que nem o soprar de um fogo pequenininho, de sair a fumacinha bonita e rodopiante.
Poesia que faz a gente ouvir uma música bonita no pé do ouvido da imaginação.
Poesia de fugir do pôr do sol pra ter mais tempo pra brincar.
Como assim já é bom dia? Passei a noite toda sonhando, senhor?
Desculpe, então, bom dia.
Então, me vê um café pra eu ver a fumacinha subir.
Esse café tá frio. Faz de conta que você bota pra esquentar de novo.
Obrigada.
Bonita fumacinha.
Pronto, agora vamos brincar de outra coisa.
Antes
Quero fazer parte disso antes que eu me esqueça.
E eu não quero esquecer da criança que corre
E que voa com os olhos fechados e o coração aberto.
Casas cheias de problemas, mas cheias de vida.
Céu cheio de sonhos e sorrisos doces.
Estou no alto, mas sou pequeno.
E há imensa beleza nisso.
Desço correndo, mas permaneço na altitude do meu devaneio.
E há razões curiosas nesse desvario.
Faço parte disso, mas, agora vejo, nunca hei de esquecer.
E eu não quero esquecer da criança que corre
E que voa com os olhos fechados e o coração aberto.
Casas cheias de problemas, mas cheias de vida.
Céu cheio de sonhos e sorrisos doces.
Estou no alto, mas sou pequeno.
E há imensa beleza nisso.
Desço correndo, mas permaneço na altitude do meu devaneio.
E há razões curiosas nesse desvario.
Faço parte disso, mas, agora vejo, nunca hei de esquecer.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Fidelidade Bacante
Suas sobrancelhas arqueadas em expressão que beira a dor,
Expressão que beira amor.
O nome de seu amante em seus lábios,
Ela o repete como se pudesse ser ouvida, atendida.
Desejo, pecado, solidão.
O corpo dele era o lar, e ela dormia nas ruas.
Os outros cobiçavam a dama,
Mas ainda que seu corpo parecesse boêmio,
Sua mente ingênua lhe era fiel.
Os quadris juvenis dançavam movidos de paixão,
Os olhos se fechavam buscando sua imagem.
Seu maior medo era lhe decepcionar,
Trair-lhe com um pensamento involuntário se quer.
Irreverente ao mundo e submissa a um homem que não lhe via.
Pobre bacante, que nada sabe e tudo sente.
Expressão que beira amor.
O nome de seu amante em seus lábios,
Ela o repete como se pudesse ser ouvida, atendida.
Desejo, pecado, solidão.
O corpo dele era o lar, e ela dormia nas ruas.
Os outros cobiçavam a dama,
Mas ainda que seu corpo parecesse boêmio,
Sua mente ingênua lhe era fiel.
Os quadris juvenis dançavam movidos de paixão,
Os olhos se fechavam buscando sua imagem.
Seu maior medo era lhe decepcionar,
Trair-lhe com um pensamento involuntário se quer.
Irreverente ao mundo e submissa a um homem que não lhe via.
Pobre bacante, que nada sabe e tudo sente.
sábado, 19 de dezembro de 2015
Eu sou a Terra dos Sonhos
Eu sou o tudo
Eu sou o nada
Eu sou o vagar por esta estrada.
Construída de sonhos e objetivos vãos
Trabalho acorrentada em prol da imagem, não da ação
Faço parte dessa complexa rede de pura ilusão
Que expressa por mim essa pequena centelha
Centelha que não satisfaz os desejos do mundo
Nos quatro cantos procurado
É seu sentido
Um dia talvez, amada será se o destino a perdoou
Acredite na força da mão
Ponha fé no que são
Refaça o Universo
Para ti, para outrem.
Harmônico, o bem e o mal.
Aconchega-se na terra e no mar
Desfrute o lar em que está
Eu sou o nada
Eu sou o vagar por esta estrada.
Trabalho acorrentada em prol da imagem, não da ação
Fere-me a percepção do perecimento do sonhar
Como matéria apodrecida que um dia já teve vida
Não sou o céu
Não sou o chãoFaço parte dessa complexa rede de pura ilusão
Não há brilho de diamante
Que dirá brilho de estrelaQue expressa por mim essa pequena centelha
Centelha que não satisfaz os desejos do mundo
Sou poeira do Universo
Potencial a ser explorado, sentido, tocadoNos quatro cantos procurado
É seu sentido
Frases feitas martelam a mente
Renegada criança, as lágrimas secouUm dia talvez, amada será se o destino a perdoou
Desperte, se erga
Encontre a razãoAcredite na força da mão
Ponha fé no que são
Para ti, para outrem.
Harmônico, o bem e o mal.
Aconchega-se na terra e no mar
Desfrute o lar em que está
Seja bem vindo a mim
Pois que eu sou a Terra dos Sonhos.sexta-feira, 18 de dezembro de 2015
Mas eu gosto da chuva...
Mas eu gosto da chuva. Apesar de molhar minhas roupas e passar-me frio, é delicioso para mim sentir as gélidas gotas entrarem em contato com meu corpo. Apesar de trazer-me lembranças, mostra-me que o eterno também passa. E que tudo possui uma beleza, uma necessidade, algo bom.
domingo, 1 de novembro de 2015
Recado da Minha Culpa
É culpa tua: todo
mundo sabe. É teu orgulho maior que teu ímpeto de ser feliz. Essa impulsividade
só te carrega pra fossa, mas não te empurra pra voar não. Tu sabes disso, só
estou reafirmando isso pra que tu não esqueças. Você não quer incomodar, quer
manter teus valores, quer sofrer pelo sofrimento alheio, mantém a palavra mesmo
que isso te fira. Honrada e infeliz. Esse é o objetivo da vida, é claro.
Mas e se as escolhas fossem outras?
Provavelmente você seria uma sem palavra, mas com um pouco mais de histórias.
Não feliz ainda. Nada muito melhor. Tu é que se afeta à toa.
“Não está fácil pra
ninguém” eles dizem. Pra uns está pior do que pra outros. Pra ti não está nem
tão ruim. Tu sabes. De qualquer forma, aproveite a estadia nessa tua fossa.
sexta-feira, 18 de setembro de 2015
A Gente
Eu não queria nem desses amores sublimes de poeta, de romance idealizado, de música bonita.
Também não precisava ser desses amores de brasa, de carne.
A gente não precisava dessas coisas extraordinárias, a gente se fazia extraordinário.
Gosto de falar da gente, que até parece um só, até parece fácil e pertinho. O problema é que a vida complica tudo e a gente acha que não dá pra levar. Mas a gente faz de conta que dá.
Vamos fazer assim, cê me dá a mão e a gente vai. Simples, ué. Não tenta complicar, sem "mas". Aí a gente não se perde de vista, não se perde de toque.
A gente passa o dia deitado respirando o ar do outro e reclamando disso, mas não fazendo nada pra mudar porque tá bom assim. A gente reclama só para matar o tempo mesmo.
A gente tem coisas em comum. Ou talvez nem tanto. A gente conversa sobre nada. A gente conversa sobre a gente. Certeza que pelo menos isso temos em comum: o nada e a gente.
Cê me leva pra passear e me conta das coisas que cê sabe. A gente senta no chão, divide um lanche e eu te conto uma história pra te fazer sorrir.
Você me ajuda nuns trabalhos, eu te ajudo nuns trabalhos, e troca uns beijos no caminho.
A gente se interfere, influencia, atrapalha, convive.
A gente dá comida pra uns cachorros da rua e leva pra casa um dia.
A gente rega umas plantas e deixa os passarinhos fazer ninho.
A gente faz o nosso ninho.
Pintamos as paredes - eu espirro e você ri.
Limpamos a casa - você espirra e eu rio.
Não tem graça em espirrar. Tem graça em rir. A gente ri a veras. A gente tem certa graça. Silogismo bobo. A gente ri.
A gente faz uns duetos meia boca. Mas, na verdade, eles são os melhores.
Eu te suporto nesses sonhos de crianção. Você dá esse sorriso.
Tu me suporta nesses devaneios de criancinha. Eu fico rindo.
A gente se observa, se analisa, se participa, se entende.
A gente troca uns colos de vez em quando. Quase sempre.
E quando a gente briga, o mundo da gente desanda. Mas a gente volta. A gente sempre volta; e o mundo também. Equilíbrio não é estático; a gente muito menos.
Eu carrego os teus filhos, você me ajuda com o peso.
Você cuida dos meus filhos, eu te ajudo com o caminho.
A gente enche eles de sonhos e desse negócio que a ente partilha e chama de amor. A gente ensina, educa, protege e deixa eles ser feliz. São os filhos da gente.
A gente construiu tudo isso. Na base dos sonhos. Na base do amor. Na base da gente.
A gente só precisa de cultivo.
A gente só precisa ser real.
Cê me dá a mão?
Também não precisava ser desses amores de brasa, de carne.
A gente não precisava dessas coisas extraordinárias, a gente se fazia extraordinário.
Gosto de falar da gente, que até parece um só, até parece fácil e pertinho. O problema é que a vida complica tudo e a gente acha que não dá pra levar. Mas a gente faz de conta que dá.
Vamos fazer assim, cê me dá a mão e a gente vai. Simples, ué. Não tenta complicar, sem "mas". Aí a gente não se perde de vista, não se perde de toque.
A gente passa o dia deitado respirando o ar do outro e reclamando disso, mas não fazendo nada pra mudar porque tá bom assim. A gente reclama só para matar o tempo mesmo.
A gente tem coisas em comum. Ou talvez nem tanto. A gente conversa sobre nada. A gente conversa sobre a gente. Certeza que pelo menos isso temos em comum: o nada e a gente.
Cê me leva pra passear e me conta das coisas que cê sabe. A gente senta no chão, divide um lanche e eu te conto uma história pra te fazer sorrir.
Você me ajuda nuns trabalhos, eu te ajudo nuns trabalhos, e troca uns beijos no caminho.
A gente se interfere, influencia, atrapalha, convive.
A gente dá comida pra uns cachorros da rua e leva pra casa um dia.
A gente rega umas plantas e deixa os passarinhos fazer ninho.
A gente faz o nosso ninho.
Pintamos as paredes - eu espirro e você ri.
Limpamos a casa - você espirra e eu rio.
Não tem graça em espirrar. Tem graça em rir. A gente ri a veras. A gente tem certa graça. Silogismo bobo. A gente ri.
A gente faz uns duetos meia boca. Mas, na verdade, eles são os melhores.
Eu te suporto nesses sonhos de crianção. Você dá esse sorriso.
Tu me suporta nesses devaneios de criancinha. Eu fico rindo.
A gente se observa, se analisa, se participa, se entende.
A gente troca uns colos de vez em quando. Quase sempre.
E quando a gente briga, o mundo da gente desanda. Mas a gente volta. A gente sempre volta; e o mundo também. Equilíbrio não é estático; a gente muito menos.
Eu carrego os teus filhos, você me ajuda com o peso.
Você cuida dos meus filhos, eu te ajudo com o caminho.
A gente enche eles de sonhos e desse negócio que a ente partilha e chama de amor. A gente ensina, educa, protege e deixa eles ser feliz. São os filhos da gente.
A gente construiu tudo isso. Na base dos sonhos. Na base do amor. Na base da gente.
A gente só precisa de cultivo.
A gente só precisa ser real.
Cê me dá a mão?
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